Educação

Educação pública de qualidade: por que o futuro de uma cidade começa dentro da sala de aula?

Educação pública de qualidade

Por Douglas Silvano — Professor de Educação Física — CREF nº 040024-G/SC

Acredito que o desenvolvimento de uma cidade não pode ser medido apenas pelo crescimento econômico, pelas obras realizadas ou pela expansão de sua infraestrutura.

Existe um fator fundamental que influencia diretamente o futuro de qualquer comunidade: a qualidade da educação oferecida às novas gerações.

Como professor de Educação Física, compreendo a escola como um espaço que ultrapassa a transmissão de conhecimentos.

É dentro dela que crianças e adolescentes desenvolvem habilidades, constroem valores, descobrem possibilidades e começam a compreender seu papel na sociedade.

A educação pública de qualidade como base do desenvolvimento de uma cidade

Quando discutimos o desenvolvimento de um município, normalmente pensamos em geração de empregos, melhorias na saúde, infraestrutura urbana e crescimento da economia.

Todos esses aspectos são importantes, mas entendo que existe uma relação direta entre eles e a formação educacional da população.

Uma cidade que oferece boas oportunidades de aprendizagem cria condições para que seus moradores tenham maior autonomia e participem das transformações sociais.

A educação pública de qualidade representa uma das principais ferramentas para ampliar oportunidades.

Uma criança que desenvolve competências de leitura, escrita, raciocínio lógico e convivência social tem melhores condições de seguir sua trajetória escolar, buscar qualificação profissional e participar ativamente das decisões que envolvem sua comunidade.

Esse entendimento está presente na própria legislação brasileira. O artigo 205 da Constituição Federal estabelece a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, associando-a ao desenvolvimento da pessoa, ao exercício da cidadania e à qualificação para o trabalho.

Na minha visão, essa definição demonstra que a educação não deve ser analisada exclusivamente pelos resultados de provas e avaliações.

Sua importância também está na capacidade de formar indivíduos preparados para enfrentar desafios, conviver com diferenças, reconhecer direitos e contribuir para uma sociedade mais participativa.

O que realmente significa oferecer uma educação pública de qualidade?

Falar sobre qualidade educacional exige compreender que a aprendizagem depende de diferentes fatores. Não basta garantir a matrícula de uma criança ou adolescente.

É necessário oferecer condições para que esse estudante permaneça na escola, participe das atividades propostas e desenvolva conhecimentos adequados à sua etapa de formação.

Uma educação de qualidade envolve planejamento pedagógico, profissionais qualificados, infraestrutura adequada, materiais didáticos, acompanhamento da aprendizagem e políticas que respeitem as particularidades de cada comunidade escolar.

Também exige uma gestão comprometida com resultados, sem reduzir a formação dos estudantes a indicadores estatísticos.

A diferença entre acesso à escola e aprendizagem efetiva

O acesso à educação é indispensável, mas considero importante reconhecer que frequentar a escola não significa necessariamente aprender tudo aquilo que se espera em cada etapa.

Existem estudantes que avançam de ano apresentando dificuldades importantes em leitura, interpretação de textos e matemática.

Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025, divulgados pelo Inep em agosto de 2026, mostram avanços no país.

Considerando as redes públicas e privadas, o indicador passou de 6,0 para 6,3 nos anos iniciais do ensino fundamental, entre 2023 e 2025. Nos anos finais, avançou de 5,0 para 5,3, enquanto o ensino médio passou de 4,3 para 4,5.

Esses dados indicam melhorias, mas também reforçam a necessidade de acompanhar a aprendizagem ao longo de toda a trajetória escolar. A meu ver, o desafio é fazer com que os avanços nacionais se traduzam em oportunidades reais para estudantes de diferentes regiões e condições sociais.

Os desafios enfrentados pelas escolas públicas brasileiras

O cotidiano de uma escola é marcado por realidades que nem sempre aparecem nas discussões sobre políticas educacionais.

Questões relacionadas à infraestrutura, à disponibilidade de profissionais, às dificuldades de aprendizagem e às condições socioeconômicas dos estudantes podem interferir diretamente no trabalho pedagógico.

De acordo com informações divulgadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Censo Escolar de 2025 registrou aproximadamente 46 milhões de matrículas na educação básica brasileira. Desse total, cerca de 25,8 milhões estavam concentradas no ensino fundamental.

Estamos falando de uma estrutura educacional gigantesca, formada por instituições que atendem populações com necessidades bastante diferentes.

Por isso, não acredito que todos os problemas possam ser resolvidos por uma única medida administrativa. A melhoria da educação exige diagnóstico, planejamento, financiamento adequado e acompanhamento contínuo.

As particularidades das escolas em municípios menores

Em cidades de pequeno e médio porte, como Sombrio, no Sul de Santa Catarina, considero especialmente relevante observar as necessidades das comunidades urbanas e rurais.

Distâncias até as instituições de ensino, transporte escolar, acesso a atividades complementares e disponibilidade de serviços públicos são questões que merecem atenção no planejamento educacional.

Isso não significa afirmar que todas essas dificuldades estejam presentes em determinado município. Significa reconhecer que cada localidade precisa ser estudada com base em dados concretos, ouvindo professores, gestores, estudantes e famílias.

Na minha avaliação, conhecer a realidade das escolas é o primeiro passo para construir soluções adequadas. Políticas públicas elaboradas sem considerar as particularidades locais correm o risco de desperdiçar recursos ou apresentar resultados inferiores aos esperados.

A valorização dos professores é indispensável para melhorar o ensino

Não consigo discutir educação pública de qualidade sem abordar a valorização dos profissionais que trabalham diariamente nas escolas.

Professores são responsáveis por planejar atividades, acompanhar a aprendizagem, avaliar o desenvolvimento dos estudantes e adaptar suas práticas às diferentes necessidades presentes em uma mesma turma.

Entendo que valorizar a profissão docente vai muito além de reconhecer sua importância em discursos e homenagens.

Essa valorização precisa estar presente nas condições de trabalho, na remuneração, na formação continuada, no respeito à autonomia pedagógica e na participação dos profissionais nas decisões educacionais.

A legislação brasileira reconhece essa necessidade. A Lei nº 14.817, de 16 de janeiro de 2024, estabelece diretrizes para a valorização dos profissionais da educação escolar básica pública.

Entre os aspectos contemplados estão os planos de carreira, a formação continuada e as condições de trabalho que favoreçam o processo educativo.

Formação continuada e condições adequadas de trabalho

A educação está em permanente transformação. Novas tecnologias, diferentes metodologias e mudanças no comportamento dos estudantes exigem atualização profissional.

Entretanto, considero fundamental que a formação continuada seja acompanhada de condições para que os professores consigam aplicar os conhecimentos adquiridos.

Oferecer cursos de capacitação sem garantir materiais, tempo adequado para planejamento ou estrutura pedagógica pode limitar os resultados dessas iniciativas. O desenvolvimento profissional precisa fazer parte de uma política educacional permanente, e não apenas de ações isoladas.

Também acredito que a defesa dos professores está diretamente relacionada à qualidade da aprendizagem.

Quando o profissional encontra um ambiente de trabalho organizado, respeitoso e com apoio institucional, existem melhores condições para desenvolver um trabalho pedagógico consistente.

Infraestrutura escolar: aprender também depende do ambiente!

Uma sala de aula não precisa ser sofisticada para proporcionar boas experiências educacionais, mas precisa oferecer condições adequadas de funcionamento.

Iluminação, ventilação, mobiliário, acessibilidade, espaços de convivência e recursos pedagógicos interferem na rotina de professores e estudantes.

A infraestrutura escolar deve ser compreendida como parte do processo de aprendizagem. Bibliotecas, laboratórios, ambientes tecnológicos, quadras esportivas e áreas destinadas às atividades culturais ampliam as possibilidades de ensino e permitem experiências que ultrapassam o formato tradicional das aulas.

Dados do Censo Escolar de 2025, divulgados pelo Inep, indicam que o percentual de escolas de educação básica com acesso à internet passou de 82,8%, em 2021, para 94,5%, em 2025. Apesar do avanço, o próprio levantamento diferencia a existência de conexão das condições adequadas para seu uso pedagógico.

Na minha visão, esse exemplo ajuda a compreender a importância de avaliar não apenas a presença de equipamentos e serviços, mas também sua qualidade e utilização.

Uma escola pode possuir computadores e internet, por exemplo, sem necessariamente oferecer condições ideais para atividades digitais.

Educação e desigualdade social: a escola como espaço de oportunidades

A realidade socioeconômica influencia as condições de aprendizagem. Estudantes possuem diferentes possibilidades de acesso a livros, tecnologias, ambientes de estudo e atividades complementares. Essas diferenças precisam ser consideradas na elaboração das políticas educacionais.

Acredito que uma das funções sociais mais importantes da escola pública seja contribuir para a redução dessas desigualdades.

Ao oferecer oportunidades de aprendizagem, convivência e desenvolvimento, a instituição pode ampliar as perspectivas de crianças e adolescentes que enfrentam situações de vulnerabilidade.

Entretanto, seria equivocado atribuir exclusivamente às escolas a responsabilidade de resolver problemas sociais complexos.

Questões relacionadas à renda, alimentação, moradia, transporte e saúde também influenciam a trajetória educacional. Por isso, a atuação articulada entre diferentes políticas públicas é indispensável.

Defendo, como princípio educacional, que garantir oportunidades exige reconhecer diferenças. Algumas comunidades podem precisar de maior atenção em determinadas áreas, enquanto outras apresentam necessidades distintas.

O planejamento deve identificar essas situações e estabelecer medidas proporcionais aos desafios encontrados.

A importância da participação das famílias e da comunidade escolar

A formação de uma criança ou adolescente não acontece exclusivamente dentro da escola. A família, a comunidade e as relações sociais exercem influência no desenvolvimento de hábitos, comportamentos e valores.

Por esse motivo, considero importante fortalecer os vínculos entre a instituição escolar e seu entorno.

A participação das famílias pode contribuir para o acompanhamento da aprendizagem, da frequência e das dificuldades enfrentadas pelos estudantes.

Contudo, é necessário reconhecer que nem todos os responsáveis possuem a mesma disponibilidade de tempo ou os mesmos recursos para acompanhar a rotina escolar.

Gestão democrática e diálogo com a comunidade

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/1996) inclui a gestão democrática do ensino público entre seus princípios, conforme a legislação aplicável a cada sistema de ensino.

Na prática, entendo que esse princípio deve incentivar espaços de participação e diálogo. Conselhos escolares, reuniões, consultas à comunidade e instrumentos de acompanhamento das atividades podem contribuir para uma relação mais transparente entre gestores, professores, estudantes e famílias.

Uma escola que escuta diferentes perspectivas tem a possibilidade de compreender melhor os problemas existentes e identificar alternativas.

Entretanto, a participação precisa ser organizada e acompanhada de informações claras, para que os debates produzam contribuições efetivas.

O esporte e a Educação Física na formação integral dos estudantes

Como professor de Educação Física, considero necessário destacar que a formação educacional não deve se limitar aos conteúdos tradicionalmente associados às avaliações de aprendizagem.

A educação também envolve movimento, criatividade, expressão corporal, convivência e desenvolvimento de habilidades sociais.

O esporte, quando utilizado com objetivos pedagógicos claros, pode oferecer experiências relacionadas à cooperação, ao respeito às regras, à resolução de conflitos e à responsabilidade coletiva. Modalidades como o voleibol permitem trabalhar situações em que a participação de cada integrante influencia o funcionamento de toda a equipe.

Entretanto, não acredito que o esporte produza automaticamente todos esses benefícios. Seu potencial educativo depende do planejamento das atividades, da atuação profissional, da inclusão dos participantes e da reflexão sobre as experiências vivenciadas.

Educação, atividade física e saúde precisam caminhar juntas

A integração entre diferentes áreas também aparece em políticas públicas nacionais. O Programa Saúde na Escola (PSE), instituído em 2007, articula ações dos setores de saúde e educação para contribuir com o desenvolvimento dos estudantes da rede pública.

Na minha avaliação, iniciativas dessa natureza demonstram a importância de compreender o estudante em sua integralidade.

Aprendizagem, saúde, alimentação, atividade física e bem-estar possuem relações que precisam ser consideradas pelo poder público e pelas instituições de ensino.

Por isso, vejo os espaços destinados à Educação Física, às práticas esportivas e às atividades culturais como componentes relevantes da estrutura educacional.

A escola precisa oferecer diferentes experiências para que os estudantes possam desenvolver seus conhecimentos, reconhecer seus interesses e ampliar suas possibilidades de participação social.

Vivencio essa realidade diretamente na Associação de Voleibol Sul Catarinense – AVOSUL, entidade da qual sou fundador e presidente.

Por meio do voleibol, tenho a oportunidade de acompanhar como a prática esportiva pode contribuir para a formação de crianças, adolescentes e jovens, proporcionando experiências que vão muito além dos resultados dentro das quadras.

Acredito que cada treinamento representa também uma oportunidade de ensinar valores como disciplina, respeito, comprometimento, cooperação e responsabilidade.

Na AVOSUL, buscamos compreender o esporte não apenas como uma atividade competitiva, mas como uma ferramenta educacional capaz de estimular o desenvolvimento pessoal, fortalecer vínculos sociais e ampliar oportunidades.

Essa experiência reforça minha convicção de que educação e esporte precisam caminhar juntos, especialmente quando pensamos na formação integral das novas gerações.

Gestão pública e planejamento: como transformar investimentos em resultados educacionais?

A qualidade da educação também depende das decisões tomadas fora da sala de aula. Orçamento, infraestrutura, contratação de profissionais, aquisição de materiais e organização dos serviços educacionais são questões diretamente relacionadas à administração pública.

Um dos instrumentos de financiamento da educação básica brasileira é o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), instituído como mecanismo permanente pela Emenda Constitucional nº 108/2020 e regulamentado pela Lei nº 14.113/2020.

Entendo que o debate sobre investimentos educacionais deve considerar tanto a disponibilidade de recursos quanto a maneira como são aplicados.

Aumentar o orçamento pode ser necessário em determinadas situações, mas isso precisa estar acompanhado de planejamento, critérios técnicos, transparência e avaliação dos resultados.

O papel dos municípios na melhoria da educação

Os municípios possuem responsabilidades importantes na organização da educação básica, especialmente na educação infantil e, em regime de colaboração com os estados, no ensino fundamental. Essas atribuições precisam ser observadas na elaboração de programas e na distribuição de recursos.

Considero relevante que o planejamento municipal utilize informações sobre matrículas, aprendizagem, transporte escolar, infraestrutura, demanda por vagas e necessidades dos profissionais.

Esses indicadores podem contribuir para definir prioridades e acompanhar os efeitos das medidas adotadas.

A participação da sociedade também tem importância nesse processo. Acompanhar informações públicas, participar de conselhos e compreender o funcionamento do orçamento educacional são formas de contribuir para a fiscalização e para o aperfeiçoamento das políticas públicas.

O futuro de uma cidade começa nas oportunidades que oferecemos hoje

A educação pública de qualidade não é construída por uma única decisão administrativa, por um projeto temporário ou pelo esforço isolado de um professor. Ela depende de continuidade, colaboração e compromisso institucional com o desenvolvimento dos estudantes.

Acredito que uma cidade demonstra sua preocupação com o futuro quando observa atentamente a realidade de suas escolas, respeita os profissionais da educação e procura garantir condições adequadas de aprendizagem.

Essas medidas podem produzir efeitos que ultrapassam o ambiente escolar e alcançam diferentes dimensões da vida comunitária.

Também entendo que precisamos abandonar a ideia de que educação é um assunto restrito aos profissionais da área. Seu funcionamento interessa às famílias, aos trabalhadores, aos gestores, aos estudantes e a todos que participam da vida em sociedade.

Nenhuma política educacional está livre de dificuldades, limitações orçamentárias ou necessidade de ajustes.

Por isso, considero indispensável manter o diálogo, acompanhar indicadores e avaliar continuamente as decisões tomadas. Reconhecer avanços é importante, assim como identificar problemas que ainda precisam ser enfrentados.

Para mim, discutir o futuro de uma cidade significa, necessariamente, discutir as oportunidades que ela oferece às suas crianças e aos seus jovens. E essas oportunidades começam a ser construídas muito antes da entrada no mercado de trabalho ou da participação na vida pública.

O desenvolvimento de uma comunidade também pode ser observado pela maneira como ela cuida de suas escolas, reconhece seus professores e garante aos estudantes condições de aprender. É nesse compromisso cotidiano, sustentado por políticas públicas e pela participação da sociedade, que vejo um dos caminhos para a construção de um futuro com mais oportunidades.

Artigo de opinião — Douglas Silvano — CREF nº 040024-G/SC

Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte.

Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/caminhando-andando-escola-de-pe-8419516/

Douglas Silvano

About Author

Douglas Silvano é professor de Educação Física em Sombrio, Santa Catarina, e atua em iniciativas relacionadas a políticas públicas, à educação e ao desenvolvimento do esporte!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sou Genial: Informação inteligente para quem quer ir além.

Bem-vindo ao Sou Genial, o seu novo ponto de encontro com a notícia.

Em um mundo onde tudo acontece ao mesmo tempo, estar bem informado é mais do que uma necessidade: é uma escolha inteligente. O Sou Genial nasceu com a missão de descomplicar a informação, reunindo em um só lugar tudo o que é relevante para o seu dia a dia, para a sua carreira e para o seu lazer.

Soue Genial @2026. Direitos reservados